quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Em tese, uma tese é uma tese. Tradução de Mário Prata da atual fase da minha vida.


Uma tese é uma tese

MARIO PRATA
Quarta-feira, 7 de outubro de 1998 CADERNO 2


Sabe tese, de faculdade? Aquela que defendem? Com unhas e dentes? É dessa tese que eu estou falando. Você deve conhecer pelo menos uma pessoa que já defendeu uma tese. Ou esteja defendendo. Sim, uma tese é defendida. Ela é feita para ser atacada pela banca, que são aquelas pessoas que gostam de botar banca.

As teses são todas maravilhosas. Em tese. Você acompanha uma pessoa meses, anos, séculos, defendendo uma tese. Palpitantes assuntos. Tem tese que não acaba nunca, que acompanha o elemento para a velhice. Tem até teses pós-morte.

O mais interessante na tese é que, quando nos contam, são maravilhosas, intrigantes. A gente fica curiosa, acompanha o sofrimento do autor, anos a fio. Aí ele publica, te dá uma cópia e é sempre - sempre - uma decepção. Em tese. Impossível ler uma tese de cabo a rabo.

São chatíssimas. É uma pena que as teses sejam escritas apenas para o julgamento da banca circunspecta, sisuda e compenetrada em si mesma. E nós?

Sim, porque os assuntos, já disse, são maravilhosos, cativantes, as pessoas são inteligentíssimas. Temas do arco-da-velha. Mas toda tese fica no rodapé da história. Pra que tanto sic e tanto apud? Sic me lembra o Pasquim e apud não parece candidato do PFL para vereador? Apud Neto.

Escrever uma tese é quase um voto de pobreza que a pessoa se autodecreta. O mundo pára, o dinheiro entra apertado, os filhos são abandonados, o marido que se vire. Estou acabando a tese. Essa frase significa que a pessoa vai sair do mundo. Não por alguns dias, mas anos. Tem gente que nunca mais volta.

E, depois de terminada a tese, tem a revisão da tese, depois tem a defesa da tese. E, depois da defesa, tem a publicação. E, é claro, intelectual que se preze, logo em seguida embarca noutra tese. São os profissionais, em tese. O pior é quando convidam a gente para assistir à defesa. Meu Deus, que sono. Não em tese, na prática mesmo.

Orientados e orientandos (que nomes atuais!) são unânimes em afirmar que toda tese tem de ser - tem de ser! - daquele jeito. É pra não entender, mesmo. Tem de ser formatada assim. Que na Sorbonne é assim, que em Coimbra também. Na Sorbonne, desde 1257. Em Coimbra, mais moderna, desde 1290. Em tese (e na prática) são 700 anos de muita tese e pouca prática.

Acho que, nas teses, tinha de ter uma norma em que, além da tese, o elemento teria de fazer também uma tesão (tese grande). Ou seja, uma versão para nós, pobres teóricos ignorantes que não votamos no Apud Neto.

Ou seja, o elemento (ou a elementa) passa a vida a estudar um assunto que nos interessa e nada. Pra quê? Pra virar mestre, doutor? E daí? Se ele estudou tanto aquilo, acho impossível que ele não queira que a gente saiba a que conclusões chegou. Mas jamais saberemos onde fica o bicho da goiaba quando não é tempo de goiaba. No bolso do Apud Neto?

Tem gente que vai para os Estados Unidos, para a Europa, para terminar a tese. Vão lá nas fontes. Descobrem maravilhas. E a gente não fica sabendo de nada. Só aqueles sisudos da banca. E o cara dá logo um dez com louvor. Louvor para quem? Que exaltação, que encômio é isso?

E tem mais: as bolsas para os que defendem as teses são uma pobreza. Tem viagens, compra de livros caros, horas na Internet da vida, separações, pensão para os filhos que a mulher levou embora. É, defender uma tese é mesmo um voto de pobreza, já diria São Francisco de Assis. Em tese.

Tenho um casal de amigos que há uns dez anos prepara suas teses. Cada um, uma. Dia desses a filha, de 10 anos, no café da manhã, ameaçou:

- Não vou mais estudar! Não vou mais na escola.

Os dois pararam - momentaneamente - de pensar nas teses.

- O quê? Pirou?

- Quero estudar mais, não. Olha vocês dois. Não fazem mais nada na vida. É só a tese, a tese, a tese. Não pode comprar bicicleta por causa da tese. A gente não pode ir para a praia por causa da tese. Tudo é pra quando acabar a tese. Até trocar o pano do sofá. Se eu estudar vou acabar numa tese. Quero estudar mais, não. Não me deixam nem mexer mais no computador. Vocês acham mesmo que eu vou deletar a tese de vocês?

Pensando bem, até que não é uma má idéia!

Quando é que alguém vai ter a prática idéia de escrever uma tese sobre a tese? Ou uma outra sobre a vida nos rodapés da história?

Acho que seria uma tesão.


Copyright 1998 - O Estado de S. Paulo

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Resumo da ópera. Barcelona 2010

Fui lá, matei a cobra e mostrei o pau… Mostrei??? Sei lá.
Voltei a Barcelona para concluir a fase de qualificação do doutorado, lá passei por dois tribunais,o primeiro deles com apresentação do trabalho de investigação realizado nesse ano e meio que passei no Recife, metida nas periferias, freqüentando os bailes de Brega, conhecendo os personagens que fazem parte do movimento, artistas e consumidores, suas práticas produtivas, suas duras rotinas e o prazer e a dignidade com a qual realizam seu trabalho. Para mim foi surpreendente e engrandecedor conhecê-los. Resultado da pesquisa? Nota máxima: Excelente!
O segundo tribunal foi a defesa do projeto de tese e as possibilidades de acabar o trabalho de maneira satisfatória no prazo por mim estipulado, avaliando meu potencial investigador e a coerência de ideias, propostas e fundamentação teórica sobre o tema. Esse foi mais foda, eles agiram como advogados do diabo, são pessoas que eu não conhecia, não conheciam meu tema, e castigaram nas questões, foram extremamente duros, mas coerentes, me abriram os olhos para a imensidão de abordagem que o objeto de estudo me permite, e que eu deveria delimitá-lo melhor sobre pena de não conseguir fazer um bom trabalho com um tema tão vivo e instigante. E é o que pretendo fazer nesses próximos meses de trabalho definir o foco e reiniciar os trabalhos.
Em Barcelona tive novamente a oportunidade de reencontrar amigos, e conhecer gente nova. Morar fora é sempre uma aventura e nos proporciona surpresas boas e não tão boas. Vivi com gente maravilhosa em todas as minhas idas e vindas. Senti saudades, sofri, mas vivi experiências únicas.
Barcelona é uma cidade que te proporciona a embriaguez constante, tem sempre alguém disposto a sair e tomar todas contigo, e quando fazes muitos amigos, oportunidade para isso não falta. Bebi, bebi muuuuuuuitooo. E foi bom... Exorcizei todos meus demônios voltei pra casa leve como um passarinho. Estar entre amigos é sempre gratificante, estamos sempre aprendendo com cada um deles e descobrindo a riqueza de alma dos seres humanos, ainda podemos confiar neles. Sentirei falta...
A surpresa ruim ficou por conta do roubo/perda??? Do meu passaporte, que só dei conta há horas do meu vôo, foi horrível, uma aventura digna de um “peliculón” candidata a Oscar de melhor roteiro.


Gente como eu não sai impune desta vida né.
Sempre ha de acontecer algo. Pois senta que lá vem a história:
Aprontando as malas no corredor para esperar o taxi que me levaria ao aeroporto, vou pegar a pasta com meus documentos, cadê??? Passaporte, identidade, carteira do consulado, matrícula da Universidade, cartão de crédito sem crédito...
Fiquei louca, abri as malas mesmo sabendo que não estavam lá, eu não tinha guardado a porra. Mas por desencargo de consciência abri! Nada... Fui tentando lembrar a última vez que saí com a pasta. Fui a Uni na quarta me matriculei, levava a pasta.
Fui no Hospital na seqüência buscar as receitas da insulina, estava com ela. Fui na farmácia comprar a insulina... Pronto, perdi! deve ter ficado na farmácia, ligamos pra lá disseram que lá não estava, pensei: Vai que liguei pra farmácia errada?
Peguei o metrô para ir no hospital e na farmácia ver se deixei por lá. NADA!
Desespero do carai. O cara da farmácia ouviu a conversa e disse se ficou lá alguém levou antes deles encontrarem, mas corra na comissaria faça uma denuncia de roubo e eles vão dizer o q vc tem que fazer.
Fui na Calle Marina, sai correndo feito uma doida, e a porra não chegava nunca. Peguei um taxi o motorista me deixou num posto policial, lugar errado, há oito quadras da comissaria, não aguentava mais correr. Outro taxi. Fiz a denuncia e me deram endereço do consulado Av. Diagonal 246. Chego no consulado as 11:15h vôo as 12:45. Explico que me roubaram o todos os documentos e não tenho como voltar e meu vôo sai em hora e meia, furei a fila de 12 pessoas. Todos querendo me matar, só não me chamaram de arroz doce. Meia hora no consulado, o cônsul assinou um “permiso de regreso a Brasil” que permite viajar sem documentos, mas fico retida na Polícia Federal aqui pra explicar tudo. Em resumo cheguei no aeroporto 15min pro vôo, fiz check in, corri com mochila, computador, câmera pelas escadas rolantes, levava um copo de salada de fruta na bolsa pra comer, cai na escada foi uva pra todos os lados. No fim de tudo o vôo atrasou hora e meia pq Obama estava no céu de Lisboa e não podíamos decolar. Isso é só resumo.
O que interessa é que cheguei em casa com a missão cumprida com excelência. Estamos todos bem, e rindo da situação. Vou escrever um roteiro e ganhar um Oscar...

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Agradecimientos, a todos que de alguma maneira contribuiram para essa investigaçao.

Agradecimientos


A mi marido e hijo, Ricardo y Rafa por la dedicación, paciencia, incentivo, confianza y amor sin límites.

A mis padres, Amaro y Dinalva por la fuerza, confianza, apoyo emocional y financiero.

A mis hermanos Fábio y Marcus por apoyar esta causa, y confiar en mi capacidad.

A Viviana Veras, compañera de tantos caminos, presente en todos los pasos de este desafío, por todo apoyo.
A Felipe Ugalde, hermano de alma, por su ayuda y amistad.

Regina Clara y Edurne, que cruzaron mi camino en Salamanca, por la amistad y colaboración.

A Paulo Cunha (UFPE), por ayudarme cada vez que necesito referencias, por la confianza y apoyo.

A mi director de tesis Dr. Nicolás Lorite por todo lo que hice para ayudarme y por creer en mi objeto de estudio.

A los amigos, alumnos, artistas y público que de alguna manera colaboró con la investigación: Pollyanna, Luca, Rafa Soares, Aninha, Gabi, Kat Pedrosa, Lu Cláudia, Eveline Vermelha, Michelle Melo, Kelvis Duran, Rodrigo Mel, Carlinha (Kitara), Nino, Carlinhos 100%, Paulo Márcio, Reginaldo Rossi, Alinne, seguidores del blog: http://pvelozo.blogspot.com

A todos los “bregueiros”, los “caça ratos”, los “raparigueiros”, los “lanchinhos”, todos que forman parte de la “fauna” del Brega.

A todos los que acompañan e incentivan cada paso de mi saga por el doctorado.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Síndrome de abstinência

Voltei a Barcelona para defender meu trabalho de pesquisa e fazer a qualificação do doutorado. Estou novamente vivendo em Badal, bairro onde vivi a primeira vez que vim.

Estaria tudo indo de maravilha se não fosse dois motivos: Falta de internet e falta de sexo(uff) A internet tivemos que contratar outra pois a que havia no piso a fulana titular da conta deixou uma dívida de mais de 200 euros. Por questões econômicas fomas para a empresa mais barata, nos prometeu instalar em 2 dias, no oitavo dia ligamos para reclamar e disseram que nunca seria em 2, no máximo 15, que se completa hj, ainda assim disseram que não intalarem em 30 dias nos dão o primeiro mês grátis. Dá pra acreditar?

Sobrevivo nos locutórios do paquistaneses. privacidade zero, fora a questão do fuso, quando posso falar com minha casa o locus já estão fechados.

Já a questão do sexo sei que o primeiro mês é o mais crítico, depois você se acostuma, mas quando você não consegue nem falar nem ver a pessoa, fica ainda mais difícil. Assim que o que me restae realmete esperar. PASSA!

Quanto ao trabalho por onde passou está sendo bem recebido, as pessoas gostam do tema, da abordagem, do texto. Ah o texto... como custa escrever e corrigir... MAs tudo está valendo a pena.

Qunado tiver novidades do tribunal passo por aqui para dar notícias. E assim que tiver internet postarei com mais frequencia.

Agora vou sair, Por aí

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Como destruir uma pesquisa de doutorado em 5 lições...



Fazer um doutorado é uma aventura das mais radicais a que o ser humano pode se dedicar, até por que não é adrenalina instantânea, que dá e passa, são quatro anos de adrenalina na veia, ansiedade em níveis sobrehumanos, estresses memoráveis, momentos de depressão profunda, vontade de matar e/ou morrer, sair correndo, gritando: _Que é? quer apanhar??? Não existe esporte radical que supere essa tensão.


Então vamos às lições de como não destruir sua pesquisa durante esse período (vale salientar que estou indo pro terceiro ano e ainda tenho tempo de descobrir novas possibilidades de botar tudo a perder)

Lição número 1 - Nunca, nunca, mas nunca mesmo, nem em questão de vida ou morte empreste seu equipamento de trabalho (notebook, PC, cÂmeras, pendrives, HDs e o que mais a tecnologia lhe proporcionar e seu bolso puder pagar) Eu emprestei meu notebook e ele foi pro espaço, não prestou para nada mais. PERDA TOTAL! Ainda bem que existe uma coisa chamada "back up", que acabou por salvar as informações da pesquisa.

Lição número 2 _ Back Up! Faça uma milhão deles, sempre, não confie nunca em um só. Cuidado com HDs Externos, alguns são uma bomba relógio, um dia de chuva, uma queda de energia, e PUF! vão pro espaço, e recuperar dados custa uma nota. Dinheiro que não tive, perdi 460 gigas de imagens, entrevistas, shows e uma infinidade de material pro documentário que pretendo fazer depois com a pesquisa. Ainda bem que havia transcrito as entrevistas, assim que não perdi conteúdo para a tese, mas as imagens, essas não tive fundos para recuperá-las.

Lição número 3 - Funcionamento da máquina, compatibilidade de programas e aplicativos. Comecei trabalhando no meu notebook, um Positivo safadinho, mas útil e único, depois que quebrou, e eu quase me mato, fui pro PC do meu filho, tudo compatível indo mil maravilhas até que pegou uma porra de um vírus dos infernos e foi pro espaço junto com o Positivo, se é que tem algo de positivo nisso. Fui pro Mac do meu marido, tive que aprender a lidar com esse bicho, ADOREIIII! mas não tinha aplicativos do office pra trabalhar gráficos. Baixamos, funcionou bem até duas semanas atrás, quando depois de um atualização do software corrompeu o aplicativo de gráficos e não posso mais acessá-los nem para fazer correções nos dados. FUDEU!!! Cupim de computador... Tentamos de tudo, não deu jeito, tomamos vergonha na cara e consertamos o PC do meu filho que há 4 longos meses estava no estaleiro. Funcionando perfeitamente me permitindo escrever para vcs e terminar minha tesina que tá já no final... Falta pouquinho, pouquinho...

Lição número 4 - Não deixe que o estresse tome conta de você, não se atreva a mal tratar as pessoas que te ajudam a passar por tudo isso, eles não merecem. Estão junto com você passando por tudo isso e de verdade não teriam nada com o pato, mas é imposssível deixá-los de fora. Um doutorado mexe com a família inteiro, ascendentes, descendentes até a sétima geração. Pior ainda se você não tem bolsa como é meu caso. Deixar de trabalhar e se sustentar, depender financeiramente de outras pessoas pesa. Mas quando essas pessoas acreditam em você, retribua, mostre pra elas que você as ama, que precisa delas por perto, mesmo que as vezes as queira matar. Beije muito e agradeça por elas proporcionarem esse momento para você. Um doutorado é para o resto da vida.

Lição número 5 - Se não tiver bolsa, nem ninguém que te ame tanto ao ponto de te sustentar todo esse período, apostando na sua capacidade, na sua força, no seu futuro. DESISTA!!! Não se faz um doutorado só com vontade, tem que ter dinheiro para sobreviver sem trabalhar, comprar livros, consertar computador, tem que ter condições técnicas, condições psicológicas pra aguentar pressão, condições intelectuais de levar uma pesquisa em frente, tem que ter CUNHÃO pra aguentar um monte de gente achando que neguinho é vagaba, passa o dia em casa, sentado na frente do computador... FAZENDO NADA!?!?!? Éhhhh porque você vai ouvir sempre alguém dizendo isso.


É isso! Vou ficando por aqui, seguindo os próximos passos. A gente se ver Por aí